“Estar no mundo criando outros mundos” — entrevista com Pedro Loureiro

editora Urutau
3 min readApr 25, 2020

A 29ª de uma série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau.

por Silvia Penas Estévez

Pedro Loureiro (Viseu, 1977)

A poesia é uma forma de ver o mundo?

Para mim, a poesia, mais do que uma forma de ver o mundo, é uma forma de nele estar. Estar no mundo criando outros mundos.

Quando escreves, pensas em alguma leitora/leitor imaginária/o? Se vês afectado por aquilo que escreves?

A escrita é um acto de egoísmo. Ainda que seja um acto de necessidade, até de sobrevivência, para quem escreve, não deixa, por isso, de ser um acto de egoísmo. No entanto, à posteriori, surge a dúvida se o que escrevemos poderá encontrar eco no outro. A publicação é pois um ato de esperança. Esperança de que os textos possam encontrar voz no outro e, dessa forma, transformar um inicial acto de egoísmo num acto de comunhão e partilha.

Achas que há leitores de poesia ou só os poetas se lêem entre si?

Acredito firmemente que há leitores de poesia para além dos habituais círculos de poetas que se regozijam mutuamente. Pessoas que nunca se cruzaram com a poesia ou que se afastaram da poesia pelas mais variadas razões. Nas sessões de poesia dita que venho fazendo é exatamente isso que me move e que tenho constatado. Penso que é essencial encontrar novas formas e meios de levar a poesia a quem habitualmente não a tem na sua vida. Urge ir ao encontro dessas pessoas, levar a poesia aos locais onde habitualmente ela não se encontra para que os caminhos se cruzem.

Que opinas sobre as redes sociais como difusoras de arte, recitais etc.?

Uma das principais razões porque uso as redes sociais é exatamente essa. Consigo obter informações, numa única plataforma, de vários agentes culturais que me interessam. Para além disso as redes sociais permitem aos pequenos agentes culturais uma maior divulgação face aos parcos recursos de que dispõem.

O teu poema nasce de súpeto, como algo que golpeia e sai de uma maneira explosiva e rápida ou é um processo mais pausado e longo?

Já me aconteceram poemas das duas formas. De qualquer forma, para mim, os poemas necessitam de tempo, de pousio. Necessito desse espaço como forma de distanciamento face ao que escrevi e conseguir assim, ainda que não seja totalmente possível, olhar para o poema como se houvesse sido escrito por outro.

Negro Silêncio (uma série da obra de Rui Chafes) (no prelo, editora Urutau, 2020)

Este livro, Negro Silêncio, como surgiu?

O Negro Silêncio surgiu como resultado da imersão na obra do Rui Chafes. Uma obra que me marcou, e continua a marcar, de forma profunda e que ecoou tão fortemente dentro de mim que a escrita surgiu como forma de exorcismo.

Qual é o teu verso favorito do livro ? Poderias explicar o porque ele é o teu verso favorito?

Não tenho um verso favorito do livro. Optei pelos versos abaixo dado que representam a força que a obra do Rui Chafes tem para mim e que gostaria que este livro pudesse ecoar dentro do leitor:

“depositou-me no rosto
a sombra de uma lágrima incandescente”

Como conheceste a editora Urutau?

Curiosamente através das redes sociais.

Alguma observação que queiras acrescentar?

Voe! Evoé!

Pedro Loureiro

Nasceu em Viseu em 1977.

Em 1995 rumou a Lisboa para estudar economia. Vive e trabalha nesta cidade desde então. Publicou “Thats all folks!” (editora Urutau, 2017) e “Astigmatismo ou redenção” (editora Urutau, 2019).

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