“Expandir fronteiras do dizível, intuir versos de um paraíso perdido.” — entrevista com Sérgio Mendes

editora Urutau
3 min readMay 8, 2020

A 42ª de uma série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau

por Silvia Penas Estévez

Sérgio Mendes (1974)

A poesia é uma forma de ver o mundo?

A poesia é uma forma de celebrar a existência, alimentando carne e espírito, singular folha coletiva. É uma forma de desvelar caminhos possíveis, veredas de amor, êxtases de loucura. É expandir fronteiras do dizível, intuir versos de um paraíso perdido.

Quando escreves, pensas em alguma leitora/leitor imaginária/o? Se vês afectado por aquilo que escreves?

Imagino-me disseminado neste todo, tornando-me verso alado sobre um poema contínuo. Gostaria que cada verso fosse uma ressonância vibrante do universo, esquecendo o que sei e o que já escrevi.

Achas que há leitores de poesia ou só os poetas se lêem entre si?

Poesia e Matemática, Física e Filosofia, Homem e Natureza, são díades que conviveram por muito tempo, desde que o Homem brotou a palavra para fora do corpo. Neste tempo de nacionalismos e poluições crescentes, tempo de alienação cultural e laboral, é urgente convocar a poesia, celebrando os cantos e recantos da vida, dos que não têm voz, cantando esse silêncio, cada verso da calçada. Cansado das coutadas literárias, dos academismos elitistas, considero que a poética vivencial precisa entrar nas nossas casas, precisa dançar na boca dos famintos.

Que opinas sobre as redes sociais como difusoras de arte, recitais etc.?

É uma forma de aproximar toda a gente. De mostrar o nosso trabalho, partilhando experiências. Mas não deve ficar por aí. É preciso abraçar e falar na praça da poesia.

O teu poema nasce de súpeto, como algo que golpeia e sai de uma maneira explosiva e rápida ou é um processo mais pausado e longo?

Os meus poemas nascem de graça, não conheço musa ou demónio que mos ofereça. Gostava de conhecer quem mos dita em surdina. Talvez minha sombra, meu inconsciente, nossos arquétipos omnipresentes, vossos sonhos e pensamentos, batendo na minha mente.

Visitações (editora Urutau, 2020)

Este livro, Visitações, como surgiu?

Foi após uma longa conversa com o meu amigo Mário O. Santos, enorme fotógrafo. Partilhei meus versos e ele partilhou suas fotografias.

Qual é o teu verso favorito do livro (transcreve-lo, por favor)? Poderias explicar o porque ele é o teu verso favorito?

Nenhuma ave canta a morte
Ou sonho que a esconda
Neste voo de luz e sombra

A explicação está na fotografia que acompanha o mesmo poema.

Como conheceste a editora Urutau?

Na Feira do Livro do Porto, no ano passado. Foi lá que conheci o Wladimir, grande amigo dos poetas!

Alguma observação que queiras acrescentar?

Sim. Quero agradecer à Editora Urutau e aos que lá trabalham. Quero dizer-lhes que admiro gente genuína e corajosa, como o Wladimir e a Sarah Valle.

O livro “Visitações” está em pré-venda no site da editora Urutau, neste link

Sérgio Mendes

nasceu em 1974. Cresceu em Guimarães, no meio dos livros de filosofia e poesia do pai. Estudou física e escreveu poemas durante quase toda a sua vida, até ao dia em que teve um sonho com Sophia. Vive na Maia, diante de três álamos, com a sua família.

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