“Sem a catarse da arte morreríamos de tristeza” — entrevista com Virgína Mota

editora Urutau
5 min readJun 8, 2020

A 73ª de uma série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau

por Silvia Penas Estévez & nósOnça

Virgína Mota (Matosinhos, 1976)

O que é poesia para você?

É o que nunca é. É uma passagem de ânimo que deixa a marca indelével do imponderável. É a vida da linguagem na voz que a precede.

Quando escreve, pensa em interlocutores? Sua escrita lhe afeta?

Me afecta a ponto de acreditar que existe um interlocutor para aquilo que escrevo, mas não penso muito nisso. Por vezes ele aparece durante a escrita e faz-nos companhia, a mim a ao texto, como aquele que vela a escrita. Talvez para que ela se realize, não sei.

Quais são os/as poetas da atualidade/vivos/vivas que mais lhe tocam nesse momento?

São vários, mas, assim de repente, gosto muito de ler a Golgona Anghel, a Raquel Nobre Guerra, a Elisabete Marques, o António Poppe, a Marília Garcia, a Ana Martins Marques e o Edimilson de Almeida Pereira.

O que você opina sobre as redes sociais como difusoras de arte? Colaboram de certa forma para a existência da poesia?

A poesia não depende disso. Como as redes têm a função de distrair e confortar a solidão contemporânea, chega-se aos livros, às primeiras leituras de poetas desconhecidos, a vídeo-poemas experimentais e performativos, o que não quer dizer que não chegaríamos a eles de outra forma. A poesia perpassa o meio. Mas, claro, como difusor de desejos pode ser que sim, que as redes incentivem a leituras mais desinteressadas como quando folheamos livros, ao acaso, numa livraria, ou, curiosos, pegamos emprestados numa biblioteca, ou com alguém.

Nos últimos anos tivemos uma série de acontecimentos no Brasil (do fim da era Lula à ascensão da extrema direita) e também uma maior visibilidade aos movimentos de lutas sociais (feminista, LGBTQIA+, indígena, quilombola, anti-racistas…) — isso reverbera na sua criação literária?

Sim, claro. Entrei no Brasil num contexto e sairei em outro. Cheguei em Maio de 2009 para um trabalho no Museu de Arte Contemporânea de Niterói e depois continuei a trabalhar em outros museus e projetos, inclusive acadêmicos, sempre acompanhando e participando das lutas sociais, nas comunidades. Chorei no dia da performance golpista contra a Dilma porque foi quando percebi a baixeza moral dos homens que tomaram o poder, unicamente para tentarem escapar de todos os crimes cometidos. E, depois disso não pararam de cometê-los. Sigo na tristeza desses dias sem escrever, mas muitas vezes escrevi, como por exemplo sobre a catástrofe do rio Doce, desencadeada pelo abuso continuado da Vale; são muitos crimes contra a natureza e os povos nativos. É inconcebível a naturalização de tanta violência contra as mulheres, os pobres, os negros, as crianças, especialmente sensível no Rio de Janeiro, onde vivi quase 10 anos. Isso atravessa a escrita na medida em que me atravessa. Mas nem sempre explicitamente. Sem a catarse da arte morreríamos de tristeza.

O seu poema nasce de súpeto, como algo que golpeia e sai de uma maneira explosiva e rápida ou é um processo mais pausado e longo?

Por vezes vem pronto. Foge como um foguete e às vezes perco-o. Outras vezes é demorado, tenho o hábito de deixar vir tudo e depois ir cortando, até os poemas ficarem magrinhos, como as figuras de Giacometti. Gosto de chegar a poemas firmes na sua simplicidade. Gosto de outros mais transbordantes, mas geralmente eles repousam e a cada leitura vão sendo limados, por vezes desaparecem de novo assim.

Alguns mundos (editora Urutau, 2019)

O seu livro, Alguns mundos, como ele surgiu?

Juntei alguns poemas como juntaria alguns mundos para ver se alguma coisa aconteceria à percepção de mundo que falta.

Qual é o seu verso favorito do livro? Há alguma explicação?

Tem um que vem à memória, tem vários, mas esse deu o mote ao livro: e eu/eu não veio/eu não chegou. É como se a poesia nascesse de um desejo irrealizável (saber quem é “eu”) ao mesmo tempo que realiza o mais insuspeito, o que não se sabia ousar desejar (eu é a insuspeita de si na linguagem a vir). É um apelo à atenção dos acontecimentos colectivos em si e entre os outros.

Como você conheceu a editora Urutau?

Conheci o Wladimir em Dezembro de 2017, numa noite fria na Associação Irreal em Lisboa, um lugar lindo, que infelizmente já não existe, que o Gonçalo Pena e a Marta Moreira cuidavam com outros amigos. Eu a Maria do Mar Fazenda tínhamos organizado um evento, um serão, em volta de uma mesa, para ler uns cadernos de pinturas, entre os que tenho pintado nos últimos anos. Depois disso o Wladimir me contou que estava lendo poetas portugueses. Voltei para o Brasil e não me esqueci disso. Procurei o site da editora, esperei uma chamada para Belo Horizonte, onde morava na época, e enviei um punhado de poemas.

Alguma observação que queira acrescentar?

Aprecio o trabalho da Urutau, do modo como percebe que a poesia é mais vasta do que suas contingências editoriais e se desafiam de modo poético. É bonito ver e foi por isso que tive vontade de publicar Alguns Mundos.

Virgínia Mota

nasceu em Matosinhos em 1976. Vive entre Portugal e o Brasil desde 2009. É Doutora em Artes — Processos Artísticos Contemporâneos- e a sua tese intitula-se “SA: da anonimidade às comunidades sensíveis”. Mestre em Estética e Filosofia da Arte, apresentou uma dissertação sobre “Aura, Vestígio e a vivência da arte em Walter Benjamin”. É Licenciada e Bacharel em Artes Plásticas pela ESAD. Foi bolsista CAPES, da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, do Ministério da Cultura/Ciência Viva e do Inov-art. É pesquisadora em processos artísticos coletivos colaborativos e desenvolve projetos transdisciplinares em escolas, universidades e museus desde 2007. Desses projetos, destacam-se a Biblioteca de Afetos (MAC-Niterói) e o Ateliê Nômade (MAR, Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, etc.). Foi co-coordenadora do Projeto Educativo do Prêmio PIPA no MAM-Rio em 2012, 14, 15 e 16 e artista convidada no Núcleo Experimental de Educação e Arte entre 2010–13 no MAM-Rio. Escreve ensaios sobre arte e filosofia. Dedica-se ainda à pintura e ao desenho. Realizou várias exposições individuais e coletivas. Ganhou o Prêmio “Residência de escrita” do Teatro do Silêncio, no âmbito do “Passado Presente” Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017. Este é o seu primeiro livro de poesia publicado. Em janeiro de 2018 tornou-se mãe de uma menina.

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